30/07/2010 - Mauricio A Costa *
“Pois como quereis que não me sinta confuso ante o que irá dizer esse velho legislador chamado Vulgo, quando vir que, ao cabo de tantos anos de repouso no silêncio do olvido, saio agora, trazendo às costas o peso de todo os meus anos, com uma história seca qual um esparto, vazia de invenção, minguada de estilo, pobre de conceitos e falha de toda erudição e doutrina, sem cotas nas margens nem notas no fim, diferente do que vejo noutros livros que, embora fabulosos e profanos, andam tão repletos de sentenças de Aristóteles, Platão e toda a caterva de filósofos, que causam admiração aos leitores, emprestando aos seus autores a aparência de homens lidos, eruditos e eloqüentes?” (Miguel de Cervantes (1547-1616) no Prólogo de sua obra "O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha" –Pág. 28-Editora Itatiaia–Belo Horizonte-MG– 2005)
...Quando eu tinha apenas quinze anos, até parece que foi ontem, uma jovem senhora, atendente de uma grande biblioteca pública que eu costumava freqüentar, já que não dispunha de recursos para comprar livros, ao ver-me absorto na leitura de D. Quixote, comentou amavelmente comigo: "você se parece com ele!" – Naquele momento, por conta da minha juvenil limitação cultural, entendi a frase como algo referente à minha compleição física, por eu ser visivelmente esguio. Só anos mais tarde, ao reler essa obra, relembrei esse inesquecível comentário, e dei-me conta de quanto idealismo parecia fazer parte da minha personalidade. Mergulhado por instantes em um profundo silêncio, confesso que meus olhos marejaram, refletindo o infinito carinho por aquela mulher que sequer sabia o nome, ou mesmo lembrava seu rosto. Um exemplo de como uma fração de segundo pode nos acompanhar pela resto da vida; um simples gesto, olhar, ou palavra pode nos afetar abissalmente, sem que tenhamos noção da grandiosidade do momento.
Foi assim, ainda na adolescência, que começou minha paixão por D. Quixote, a bíblia de quem deseja mergulhar fundo na alma humana, para sentir o martirizante efeito do dualismo que a permeia, numa luta sem trégua entre a leveza do sonho que carrega, e a assustadora realidade que avança sobre ela como um exército de ferozes guerreiros invisíveis.
Hoje, tornei-me um apaixonado pela humanidade, na busca por entender a essência daquilo que ela é, e percebo com certa dose de tristeza, a razão maior por trás da inquietude de cada ser, na incômoda angústia de viver dividido entre o que a alma traz de mais sagrado e a força da matéria que a aprisiona. Uma batalha desesperada contra o tempo e contra tudo, por saber que cada minuto pode ser decisivo para concretizar seu ideal, e que ferrenhos inimigos estarão por toda parte, a tentar usurpar-lhe o significado do próprio existir, ou aquilo que possa ser seu grande legado.
Todo empreendimento, projeto ou empreitada pessoal traz embutido o sonho de um empreendedor, e é esse sonho, ou ideal que dá origem à sua marca. Quando o sonho é destruído por qualquer razão e o ideal parece fenecer, a alma desse guerreiro vagará sem destino, perdida na escuridão das frustrações como se para ele a vida não mais fizesse mais sentido; a prostração e o desânimo passam a tomar conta da mente, que se torna confusa, fragmentada e impotente. É nesse momento que a energia sagrada do todo que o envolve, poderá suavemente reacender-lhe a alma, porque o ideal na verdade, jamais se extingue, por ela ser eterna e não ter noção de espaço ou tempo.
Sinto profunda decepção, ao ver ridicularizado pela insensibilidade ou arrogância de alguns, o trabalho de incansáveis escritores de auto-ajuda, ou de médicos e terapeutas que atuam com a medicina que vai além do convencional, ou ainda de honestos e dedicados espiritualistas e religiosos que se entregam à missão de confortar e apoiar, num visível esforço para despertar essa chama latente, quase apagada, em maravilhosos seres humanos, que caminham como zumbis, alheios ao extraordinário poder interior que carregam; necessitando apenas de um leve sopro de vida naquela pequena flama, sufocada na maioria das vezes por ingenuidade, despreparo, ou por motivos alheios à sua vontade, mas por muitos ignorada.
O empreendedor que supera desafios e atinge com bravura o ápice do sucesso, não verá apenas no dinheiro ou no poder o único sabor de sua conquista. Para ele, a realização pessoal, é a verdadeira conquista. O ideal da própria alma transformado em algo concreto. É esse ideal que gera um conceito poderoso, e transforma um simples nome em uma marca que transcende todo tipo de obstáculos para se tornar uma referência.
A beleza da história contada por Cervantes, todavia, não nos mostra apenas o lado idealista do ser humano, mas faz-nos acordar também para a realidade que nos cerca. O personagem Sancho Pança é a nossa mente, sempre racional e obstinada por coisas concretas, que nos aprisiona a correntes formadas por dogmas, preconceitos, tabus e paradigmas de toda ordem. Esse Sancho Pança será um incansável, mas efêmero, serviçal da nossa "quixotesca" alma, que movida pela energia do eterno não se prende a nada, pois navega em seu infinito agora. A consciência da complementaridade desses dois personagens dentro de cada um de nós, com certeza, poderá permitir uma caminhada mais serena, e minimizar conflitos íntimos que produzem inoportunos questionamentos existenciais, que desembocam quase sempre em momentos de profunda angústia ou até depressão.
A plenitude do viver está na convivência pacífica conosco mesmos. O segredo está em compreender a estupenda energia resultante do encontro dos opostos; nisso consiste a sabedoria que produz a vida. A harmonia por onde flui a essência daquilo que chamamos paz.
* Mauricio A Costa é formado em Direito e Pós Graduado em Marketing. É Consultor de Empresas para assuntos de valor agregado, visão estratégica, licenciamento e gestão de marcas. Atua também como coach e palestrante.
É o autor do livro O MENTOR VIRTUAL. Ex-executivo do Grupo Gerdau, e da Kimberly Clark. Ex-Diretor do Grupo Grendene. Atualmente, Assessor para Assuntos Estratégicos do Grupo Tecnol.
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