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Daniel Isenberg: 'O segredo de empreender está na ambição'

É preciso incentivar o surgimento de empreendimentos que sejam possíveis potências globais, em vez de apenas uma alternativa ao desemprego dos donos


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 06/12/2011

Uma das maiores autoridades em empreendedorismo no mundo, o americano Daniel Isenberg defende a separação clara entre os homens de negócio ambiciosos, que buscam criar uma grande empresa, e o tradicional conceito de microempresa.

"São funções diferentes: o empreendedorismo voltado a criar empresas globais traz desenvolvimento econômico, enquanto os micronegócios têm a função de aliviar a pobreza. O problema é que governos e organizações não governamentais se concentram somente na segunda opção", diz o especialista.

Isenberg, que veio ao Brasil para participar de um evento da revista The Economist, afirma que a cultura do empreendedorismo não será criada com programas de incentivo governamentais, como o Startup America, do governo Barack Obama. "É preciso que a mídia participe, que profissionais estejam dispostos a trabalhar nessas empresas e que as grandes companhias comprem os produtos das startups (empresas iniciantes)." Esse "ecossistema", explica ele, vira realidade quando um grande número de pessoas trabalha em torno de um setor específico. "É o que ocorre no Vale do Silício, por exemplo."

Para o especialista, a importância da inovação na criação de uma cultura empreendedora é "exagerada". Isenberg diz que o mais importante na criação de um novo negócio é a capacidade de prever uma tendência de mercado, de identificar valor no que é visto como trivial. "Adaptar um negócio já existente é um modelo válido", afirma Isenberg, que acabou de investir em um "copycat" do site de viagens Expedia na Rússia.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

As iniciativas de empreendedorismo podem ser globais?

O debate é global, mas as iniciativas têm de ser locais. Temos projetos sendo desenvolvidos na Colômbia, no Chile e em Porto Rico. Nosso propósito é demonstrar que é possível criar uma cultura empreendedora em um período de cinco a dez anos. Queremos mostrar que o empreendedorismo precisa ser parte da estratégia de crescimento dos governos ao redor do mundo. Mas os órgãos oficiais hoje têm muitas ideias equivocadas sobre o tema.

Que equívocos são esses?

Um dos principais erros é crer que apenas criar uma política de incentivos pode ajudar a desenvolver novos negócios. Defendemos que é necessário um ecossistema: é preciso criar a cultura, ter as políticas de incentivo, as organizações de apoio, os serviços profissionais voltados para novas companhias e garantir também o acesso aos consumidores de larga escala, os grandes conglomerados. Na verdade, hoje ainda se confunde empreendedorismo com microempresa, com pessoas trabalhando de forma autônoma, como alternativa de renda. Eu defendo um empreendedorismo diferente, que tem o objetivo de formar empresas globais. São funções diferentes: o empreendedorismo voltado a empresas globais traz desenvolvimento econômico, enquanto os micronegócios têm a função de aliviar a pobreza e substituir empregos que foram fechados. O problema é que governos e organizações não governamentais se concentram somente na segunda opção.

É preciso combater a noção de empreendedorismo como uma resposta ao desemprego?

Esse é um erro comum. Empreendedorismo não é uma solução rápida. Exige um investimento por um período de tempo. Não adianta achar que isso vai acontecer em dois anos. O empreendedorismo não tem a função de resolver uma situação específica de desemprego em um determinado país.

Por que é necessário que os negócios sejam ambiciosos?

É sempre preciso ter grandes expectativas, mas isso por si não é garantia de sucesso. Para cada negócio de internet que vira símbolo de sucesso, como o Facebook, há centenas de iniciativas fracassadas. Na internet, a barreira para a criação de novos negócios é bastante baixa, pois o investimento necessário é menor. Como resultado, há muitas empresas nascendo, parte de uma moda de que tudo deve ser baseado na internet ou nos aplicativos de smartphones. Mas a verdade é que ainda existem grandes oportunidades em negócios tradicionais. Um dos meus alunos nos Estados Unidos criou uma empresa de eventos baseada em esportes radicais: começaram com US$ 20 mil em recursos próprios e vão faturar US$ 25 milhões no segundo ano de funcionamento. Agora, pensam em se tornar globais.

Falta informação ao candidato a empresário?

Muitas vezes, os empreendedores seguem modelos de negócio que já viraram clichê, como o de Steve Jobs ou o de Mark Zuckerberg, e que são muito difíceis de se copiar. É preciso que essas pessoas encontrem empreendedores acessíveis, gente do mundo real, que possa passar um pouco da realidade de ter o próprio negócio. Outro problema é a falta de conhecimento. As pessoas não pensam no trabalho técnico: você precisa saber gerenciar pessoas, lidar com dinheiro, organizar o dia a dia de um escritório. Parece chato, mas é essencial - um empreendedor tem de respeitar e apreciar esse trabalho. O organograma de uma pequena companhia deve definir claramente as funções de cada um. É preciso encontrar os parceiros certos, ter conselheiros externos. É preciso deixar claro que o empresário não vai conseguir fazer tudo sozinho.

A internet mudou a maneira de empreender?

Acho que empreender é um conceito fixo, que não está relacionado à evolução tecnológica. Fala-se que hoje é mais fácil montar a infraestrutura para um website ou uma plataforma de e-commerce porque a estrutura é mais barata. Mas a evolução tecnológica sempre facilitou as coisas - a eletricidade também tornou as coisas mais fáceis num passado distante. Isso é infraestrutura, mas não se cria mais empreendedorismo, porque o que está no centro da discussão é a forma de gerenciar um negócio.

O que o sr., no fim das contas, quer que os futuros empreendedores saibam antes de iniciar uma operação?

O segredo de um grande negócio está em sua ambição. Iniciar um empreendimento é algo que permite que pessoas normais muitas vezes façam coisas extraordinárias: é gente saindo da classe operária e construindo grandes empresas. É esse tipo de empreendedor que se vicia em criar negócios, que ajuda a tirar novas companhias do papel, que se torna investidor-anjo, abre fundos de venture capital, dá palestras em universidades, torna-se conselheiro. Isso ajuda o ciclo de empreendedorismo a ficar mais sustentável. Esse ciclo positivo pode ser percebido em certos locais como o Vale do Silício, em Berlim e em Londres. É o que começa mais ou menos a acontecer agora em São Paulo: a concentração de um maior número de empresas, de profissionais bem preparados, de advogados e fundos de venture capital.

Em Berlim, criou-se todo um sistema econômico no setor de internet em torno de cópias de modelos consagrados nos EUA. Isso é válido?

Adaptar um negócio já existente é um modelo válido. Eu mesmo acabei de investir em uma empresa como essa na Rússia, que usa um sistema parecido com o do (site de viagens) Expedia. Eu diria que a importância da inovação, nesse sentido, é exagerada. Muitas vezes, o sucesso de um negócio não depende em nada da inovação. O segredo está em criar valor, oferecer e vender algo que não era apreciado pelas pessoas antes.

Daniel Isenberg é professor e diretor do programa global de empreendedorismo da Babson College, dos Estados Unidos, e consultor do programa de incentivo à criação de nova empresas do governo Barack Obama. Foi professor das universidades Harvard e Columbia e escreve para o website Huffington Post e para a revista The Economist.

Oesp




 

 

 

 

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