03/09/2010 - Mauricio A Costa*
Só um trabalho sério de “branding” (construção da marca corporativa) poderá ser decisivo para interagir com todos que de alguma forma possam afetar o futuro do empreendimento
“É necessário firmarmos nossas convicções antes de nos lançarmos em ações livres e conseqüentes. Isso vai nos fortalecer intimamente, condição necessária para a construção das trincheiras internas que nos defenderão das pressões do meio social. Aí sim, poderemos percorrer as estradas que escolhemos. Se não conseguirmos construir posições internas sólidas, de nada adianta acusarmos a estrutura social de escravizante e opressora, uma vez que estaremos apenas nos escusando de assumir nossa incompetência”. (Flávio Gikovate em “A Liberdade Possível” – 3ª Ed Revista - Pág. 242 – MG Editores – São Paulo-SP – 2006).
Recentemente, numa reunião com certo empresário, fui questionado com a seguinte pergunta: “Porque, sendo você um homem com tamanha experiência como executivo, empresário e consultor de empresas dedica a maior parte do seu tempo a falar de construção da marca pessoal? - Por que não fala ou escreve mais sobre os verdadeiros problemas que afligem uma empresa como o descalabro tributário que destrói a maioria dos sonhos de qualquer empreendedor, ou sobre assuntos de estratégias de marketing que você domina tão bem?” Confesso que de início fiquei um pouco chocado com a pergunta e até repeti a pergunta para mim mesmo por uma fração de segundo. Afinal, pensando por instantes como meu interlocutor, na qualidade de consultor de empresas eu deveria me preocupar mais com os problemas e desafios da empresa e menos com as pessoas, que eventualmente podem até ser transitórias no empreendimento. A dúvida, no entanto, não durou mais que o tempo de uma respiração profunda, e a resposta saiu automática da minha boca, como se já estivesse pronta a milhões de anos: “Nem mesmo Deus, achou que valeria a pena ter uma idéia tão brilhante como a de criar o mundo se não tivesse com quem partilhar seu empreendimento, e por conta disso construiu sua própria equipe, ao delegar poderes iguais aos seus, transformando seres irracionais em deuses”. Portanto... continuei: “A importância das pessoas na formação de uma grande marca começa no próprio “Gêneses”. Deus, a maior de todas as marcas, não faria qualquer sentido se não existissem as pessoas; Ele se realiza e se torna visível através do ser humano, fora disso seria apenas uma idéia”.
Meu interlocutor permaneceu calado por alguns instantes, olhando para mim como se eu fosse um ET e em seguida me falou: “Acho que você foi muito longe com essa... Sua resposta me assusta, ao pensar na dimensão da importância das pessoas para minha empresa...” ao que eu completei com um sorriso brincalhão, quase ingênuo: “Bingo!”. Em questão de minutos, estava concluído um trabalho de consultoria que poderia levar meses de discussão e análise. Durante os momentos seguintes, após esse inusitado diálogo, comecei a falar sobre um termo criado pelos americanos para definir tudo isso, chamado “stakeholders” (Recomendo a leitura da explicação detalhada desse termo no endereço: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_stakeholder), que em português poderia ser definido como “todas as partes envolvidas em uma atividade ou processo qualquer na construção de um empreendimento”. Os tais “stakeholders” de uma organização são, portanto, seus investidores, seus empregados, seus consultores, seus acionistas, seus clientes, seus fornecedores, bancos, governos, profissionais liberais, instituições, associações e todos enfim, que de alguma maneira contribuem para agregar valor à sua marca.
Ao analisarmos o assunto com um pouco mais de profundidade, veremos que a realização de um simples projeto depende na verdade de um imensurável número de pessoas, envolvidas direta ou indiretamente na sua execução. Gente, gente, gente... Muita gente. Dezenas, centenas, milhares de pessoas interligadas para que esse projeto tenha sucesso. Cada uma delas com o poder de alterar significativamente a evolução e até mesmo o resultado final de uma idéia entusiasticamente encetada por um empreendedor. Uma informação incompleta, uma orientação mal definida, ou uma interpretação equivocada, pode ser o suficiente para gerar um efeito dominó de proporções inimagináveis. Querer estruturar um empreendimento sem se preocupar com os valores e crenças que fazem parte da índole das pessoas nele envolvidas pode ser fatal à construção de um sonho.
Lamentavelmente, tenho observado que a grande maioria dos empreendedores não leva em conta essa interconexão do seu negócio, e subestimam as relações humanas dentro e fora de suas empresas. Ignoram o que dizem as pessoas a cerca de sua empresa, seus líderes e suas ações. Mais ainda, desdenham quando se fala da importância de marca individual na formação da marca corporativa. Como uma galáxia, uma planta, ou uma simples formiga, todo e qualquer conjunto é formado pelas partes que o compõem; da força resultante da interação dessas partes depende o equilíbrio, o funcionamento e a sua própria sobrevivência.
Estou certo de que é decisivo para o empreendedor, levar em consideração o fato de que uma grande marca é formada pelo encadeamento de várias pequenas marcas individuais, e é neste ponto que focalizo toda minha atenção como consultor: a importância de se investir na construção da marca pessoal. Não estou falando aqui em treinamentos técnicos; minha preocupação diz respeito ao ser humano por trás do profissional, pois se esse não estiver bem consigo mesmo, seu lado profissional será subutilizado, quiçá, deteriorado. Não destaco apenas as equipes internas, ou colaboradores diretos, é preciso conhecer todos os evolvidos no processo.
Certa vez, tempos atrás, num encontro casual no Aeroclube de São Paulo, onde éramos sócios, tive uma conversa informal com um inesquecível amigo, o Comandante Rolim Amaro, fundador da TAM. Lá pelas tantas, depois de muito falarmos sobre aviões, que era nosso assunto favorito, fiz uma curiosa pergunta de caráter mais formal: “Rolim, ao que você credita o sucesso da sua Empresa?” – Ao que ele me respondeu sem pestanejar: “Sabe, Comandante MAC... (esse era meu nome de pista na aviação, resultado das iniciais do meu nome), ...respondeu ele em um tom quase formal... Um dia, folheando uma revista, li uma frase dita por Walt Disney ao lhe dirigirem essa mesma pergunta, onde ele respondeu: “Para ter sucesso no meu negócio, eu contrato um sorriso e treino a técnica”... Eu aprendi então, que para meu empreendimento dar certo, precisaria ter comigo pessoas que estivessem sempre de bem com a vida”, concluiu ele, com um sorriso de felicidade, que para mim era o próprio sorriso do sua equipe. Saí daquele encontro com a sensação de haver feito uma pós-graduação em administração de empresas em poucos minutos.
Algum tempo depois, em um vôo internacional da antiga VARIG entre São Paulo e Frankfurt, ao perceber um visível mau humor da Equipe de Bordo, eu me lembrei desse diálogo com o Comandante Rolim no Campo de Marte, e perguntei a uma das comissárias “onde estava o sorriso dela”. Ao que recebi imediatamente como resposta: “Não somos pagos para sorrir”. Confesso que, de imediato, me senti mal e fortemente decepcionado; e com uma ponta de amargura, pensei: “se todos pensarem assim nesta empresa ela não vai durar muito” (Embora nessa época a VARIG estivesse muito bem e fosse a maior empresa aérea brasileira).
Comparando hoje esses dois diálogos, recordo com saudade do amigo Rolim, e com pesar o destino que teve a VARIG por ignorar a importância do inter-relacionamento íntimo da empresa com sua Equipe e vice-versa. A doença que envenenou a Empresa chegou a contaminar sua sucessora, a GOL, um empreendimento originalmente bem sucedido, mas que perdeu seu viço ao absorver algo deteriorado. Ao mesmo tempo, o crescente sucesso da TAM, pelo menos até a morte do Comandante Rolim, mostrou o quanto ele estava certo. Ele sabia que uma grande marca só se constrói com marcas individuais fortes. Por isso, investia em valores, e desde o momento da contratação de suas Equipes fazia questão que cada um vivenciasse a Empresa como sendo sua, transferindo aos clientes a sensação de estar de bem com a vida, por fazer aquilo que gostavam, e o fazer com entusiasmo. Marcas Pessoais Fortes. Essa era a visão que ele trazia como seu grande segredo. Espero que seus familiares e os executivos continuadores de sua obra tenham mantido inabalável esse credo do Rolim.
As empresas de sucesso serão aquelas que conhecerem de perto seus “stakeholders” e, mais que isso, que entendam que eles são mais que um simples aglomerado de “pessoas”. São na verdade conexões humanas, carregadas de energia de todo tipo e intensidade. Gente alegre e gente frustrada. Alguns bem intencionados, outros nem tanto. Muitos torcendo para que tudo dê certo, outros destilando energia negativa ou manipulados por terceiros para produzir corrosão. Só um trabalho sério de “branding” (construção da marca corporativa) poderá ser decisivo para interagir com todos que de alguma forma possam afetar o futuro do empreendimento.
Investir na Marca Pessoal, no entanto, não é preocupação exclusiva da empresa; deve antes, ser uma tarefa e um desafio individual de cada um. Desde a hora em que acordamos, estamos construindo nossa marca, uma vez que estamos sendo observados por aqueles à nossa volta. Pais, filhos, cônjuges, amigos, inimigos, clientes, fornecedores, até mesmo o cachorro; todos nos observam; e partir dessa observação, criam uma percepção, um conceito que para eles define nossa marca. Seremos vistos então como leais, confiáveis, determinados, ousados, serenos, etc. ou como preguiçosos, falsos, acomodados, arrogantes, egoístas, despreparados, desequilibrados, ou outro qualquer conceito que possamos criar com nossas atitudes. Por essa razão, quando insisto em dedicar um foco maior do meu trabalho como consultor ou coach, na atenção às pessoas, viso antes de tudo, despertar a consciência para os verdadeiros valores que fazem uma marca brilhar. Valores que, de alguma forma ajudam a produzir credibilidade, conceito maior de uma marca forte; por saber que a somatória dessas marcas individuais é o que irá definir a força da marca “guarda-chuva” que os acolhe.
Mesmo que você tenha perdido algum tempo de sua vida com decisões equivocadas, em consequência de ambição, más companhias, preguiça ou indolência, ainda é tempo para mudanças. Não se entregue ao comodismo de achar que tudo está perdido e que não vale a pena fazer correções. Ainda é tempo. O importante é tomar consciência desses equívocos, sabendo que todos à sua volta, sem exceção, cometeram deslizes e erros, quem sabe, maiores que os seus. Eles estão apenas encobertos sob fachadas de hipocrisia ou protegidos pelo poder, dinheiro, ou ambos. Portanto, desperte o maravilhoso ser humano que vive em você e aposte tudo naquilo que é seu potencial. Invista em seus dons e talentos, porque você é único, e não será qualquer rótulo criado por outros, ou por fantasmas de sua mente que irá destituí-lo do poder imensurável que carrega na alma. Sua marca pessoal nasce no âmago do seu ser, e apenas a você caberá imprimi-la por onde passar, deixando seu legado.
Encontre a Empresa certa que acredite em seu talento e revele no sorriso a energia inefável do universo fluindo através de você. Se essa empresa ainda não surgiu em seu horizonte, crie seu próprio empreendimento. Não importa o tamanho dele. Ainda que ele seja formado “apenas” por você, basta que esteja carregado de entusiasmo para que se torne respeitado e desejado. A partir daí, trabalhe na construção da sua visibilidade para gerar sinergia.
* Mauricio A Costa é formado em Direito e Pós Graduado em Marketing. É Consultor de Empresas para assuntos de valor agregado, visão estratégica, licenciamento e gestão de marcas. Atua também como coach e palestrante.
É o autor do livro O MENTOR VIRTUAL. Ex-executivo do Grupo Gerdau, e da Kimberly Clark. Ex-Diretor do Grupo Grendene. Atualmente, Assessor para Assuntos Estratégicos do Grupo Tecnol.
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